A mais amada Banda de Música da Paraíba

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Já são cinco horas da manhã do dia 20 de janeiro na frente da Igreja Matriz e a banda começa a tocar o belíssimo hino de São Sebastião, antes que o sol apareça com seu calor e esplendor. Rojões e foguetes são disparados e os que estão dormindo começam a despertar para a Alvorada; logo o sino da igreja soma-se a delicada sinfonia que deixa os que estão próximos surpreendidos de tanta emoção e os que estão em suas casas de ouvidos atentos, inevitavelmente se comovem, pois a melodia belíssima personifica um ritual que se repete desde que o picuiense nasce e cuja origem se perde no tempo. Em seguida a banda começa o seu movimento geralmente a partir da Rua Ferreira e um som impecável e harmonioso passa a percorrer as principais ruas da cidade, seguindo-a uma multidão que não para de crescer. A interpretação do “Cisne Branco” sempre é memorável!!

Embora a banda toque o ano inteiro nos melhores eventos de nossa terra, é na comemoração da Festa de Janeiro que ela se supera, tanto pela produção quanto pela emoção que o seu som provoca, já que se apresenta até três vezes no dia, começando na Alvorada, encantando nos “giros musicais” e fechando com chave de ouro no final da tarde, prévia fantástica da grande noite que se seguirá, repleta de encontros com amigos, familiares e amores.

A nossa filarmônica foi fundada em 1880, por intermédio do Coronel José Ferreira de Macedo, o então político mais importante do seu tempo aqui residente. Naquele tempo todas as filarmônicas eram criadas e sustentadas pelo fazendeiro ou grupo político mais poderoso. Era uma maneira de demonstrar seu poder e sua riqueza, através do oferecimento de música por ocasião das festas religiosas e cívicas, leilões, enterros, carnaval, campanhas políticas, dentre outros acontecimentos.

Com a morte do fundador, a banda sobreviveu milagrosamente, até que na década de 1930 houve uma revolução durante os dezessete meses em que o Coronel Antônio Xavier de Macedo foi prefeito municipal (16/12/1937 a 02/05/1939) quando patrocinou com dinheiro do próprio bolso a aquisição de instrumentos musicais, os fardamentos dos músicos e a vinda de um maestro de muito talento.

Grandes músicos passaram por nossa filarmônica ao longo dos seus 140 anos de existência e é triste saber que muitos foram esquecidos para sempre. Se o mestre Celestino teve muita fama no passado, é do Mestre Alfredo que todos se recordam com veneração, por seu bom caráter e pelo grande conhecimento musical que conseguiu transmitir para muitos conterrâneos. No presente, cabe ao maestro José Carlos dá continuidade a esta tradição, pois deve ser uma responsabilidade imensa liderar e conduzir o mais amado patrimônio imaterial de nossa Terra, ainda com a missão de acompanhar e orientar as novas vocações musicais que vão surgindo e que seguirão perpetuando a nossa “banda de música”, agora com o nome pomposo de Filarmônica, considerada a quarta mais antiga da Paraíba.

Dentre os músicos inesquecíveis da minha geração, cito Chico Preto que se tornava um titã quando soprava o seu trombone, João Costa com sua batida perfeita no Tarol e a beleza que era contemplar a família inteira de dona Teonila em “perfeita harmonia”, mostrando a capacidade que a música tem de unir as famílias e as coletividades, e comprovando uma afirmação de Cervantes, no sentido de que “onde há música não existe coisa má”.

Sim, existem muitas divergências de opiniões na nossa terra amada, mas há uma unanimidade consubstanciada no amor a sua filarmônica e a tudo que ela representa em termos de cultura e de simbolismo na alma de todo picuiense, aspecto que a conserva sempre “na moda” desde 1880 !!

ALISSON PINHEIRO