A formatação do ideal

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As informações que nos chegam nesse início de terceiro milênio vêm repletas de informações subliminares. Essa multiplicidade de dados dificulta encontramos o ponto ideal das nossas decisões e escolhas. Para decodificarmos essas informações, sejam visuais ou sonoras, precisamos entender o mundo contemporâneo que nos rodeia; para isso se faz conhecer a semiótica. O que é desconhecido de muitos, pode parecer difícil, todavia, à medida que tomamos conhecimento passamos a ver o mundo com outro olhar. Como a semiótica, enquanto área do conhecimento, é “a análise dos signos ou o estudo do funcionamento dos sistemas dos signos”, segundo Paul Cobley e Litza Jansz, afirmo que conhecê-la é uma condição essencial à compreensão dos ventos turbulentos ou alísios culturais, políticos, econômicos e sociais que nos atinge.

Esse debate não é novo. Os gregos já o faziam para compreender o que chamavam de signos naturais, aqueles representados na natureza como o trovão, ventos de tempestades, e os signos convencionais oriundos da comunicação. Santo Agostino, na Idade Média, também escreveu sobre o tema.

Para melhor ilustrar o raciocínio quanto à busca ou encontro do ideal, opto por metáforas. Vejo um jovem com uma tatuagem que rasga o braço conversando com uma jovem com uma tatuagem que beija o pescoço. Deslocando-me até a noite encontrei um ator bêbado narrando à cena que por horas repetiu no ensaio que durante a tarde lhe consumiu. Antes de a madrugada chegar, vi o casal, que não me via de tão chapados que estavam, no mundo da navegação alucinógena. Vi além da violência física, a violência simbólica demarcando um espaço vazio. Procurei um ideal que desse substância as cenas vistas e senti dificuldade de identificá-lo. Senti que buscavam reconhecimento, empoderamento e legitimação à liberdade e identidade. Tudo aparentemente acontecendo e muito pouco de real para se colher, ou melhor, quase nada a se realizar. Envolvimento desses sujeitos invisíveis, que tentam de tudo para se tornarem visíveis, só com seu coletivo ou com sua tribo. Sem certeza, muito menos clareza do que estava acontecendo, me perguntei para que servia aquilo tudo? Fui mais longe, mergulhei em dúvidas e, sem respostas, me indaguei sobre o que estava por acontecer. Poderia ser mais um trágico resultado da sociedade do espetáculo.

Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação (DEBORD, 2007, p. 13).

Para me certificar dos imbróglios por mim visto, procurei uma excelente aluna para subsidiar, com o conhecimento da juventude, minha investigação. Antes de qualquer resposta ela ficou indignada, me rotulando de preconceituoso. Expliquei que não se tratava de preconceito e, sim, de conceito. Mas, ela tentou me convencer de que eu devia formatar meus ideais porque minha visão de mundo estava ultrapassada. Eu continuei a indagar, até para me convencer, de que eu estava ultrapassado. Inesperadamente tive como resposta uma mensagem cheia de fúria, vindo de um vazio, vácuo de ideologia de vida. Fui obrigado a pensar que estava diante de uma geração que não tem fundamentação crítica e, por conseguinte, ainda não percebeu que uma das vertentes geradoras da crise das depressões é a “proletarização do mundo”, termo utilizado por Debord que se adequada bem a esse debate. É a desilusão de ser subalterno, fruto da falta de leitura. Esse grande grupo sequer leu sobre o golpe militar de 1964 no Brasil, nem sobre o maio de 1968 em Paris. A interpretação que dou dessa geração passiva é que, infelizmente, falta leitura crítica.

Pois bem, meu bem, fui ler Jessé Souza para entender o porquê daquele mergulho vazio do qual eu não tinha resposta convincente. Tentar entender o fato e qual a base que tal elite do atraso adotou para convencer uma juventude que sonha, mas que tem dificuldade de compreender o processo político o qual está inserido e, consequentemente, quais os passos deve dar para realizar os sonhos que lhe faz “navegar”. A geração que pouco conhece sobre os conflitos das diferenças de classe. É certo que dentro da concepção burguesa, o sonho pode ser pensar e alimentar a possibilidade de ser parte da tal elite, digamos, burguesa. A falta de leitura e, consequentemente, politização são as condições impostas que não permitem que os sonhadores do vazio alcancem e se tornem parte dessa burguesia consumista e exploradora, simplesmente, porque é a elite do atraso. Esse conceito é pertinente porque parte do pressuposto de que o consumo, fruto da condição pós-moderna a qual estamos vivendo, é imposto por uma mídia cujos valores maciçamente divulgados são individualistas, alienante, e que tem foco nos produtos comerciais, logo no consumo desvairado e, por consequência, na mais-valia e não no social. Então

A lógica da maximização do lucro, que envolve a preponderância do valor de troca de uma mercadoria, ou seja, seu preço final, em relação a seu valor de uso, ou seja, a utilidade desta para seu comprador, aplicada à produção de bens simbólicos desvirtua o próprio valor de uso do bem cultural, que é possibilitar o desenvolvimento da capacidade reflexiva (SOUZA, 2017, p. 123).

A leitura de Jessé abre o debate para o grau de alienação que toda uma geração está imersa. Abrir um diálogo com alguém dessa geração, um “cara”, um “boy” ou uma “boyzinha” para saber o estava lendo, pode se deparar com uma resposta pouco surpreendente: nada. A geração do vazio? Não, claro que não. A geração da despolitização; aquela fácil de ser manipulada, enganada, desvirtuada porque vive da dependência de imagens que aparentam o nada nas redes sociais. Sintoma grave de falta de ideais, consequentemente do vazio que abastece o ser de muito pouco ou quase nada.

Lembro os programas policiais televisivos e radiofônicos que insistem em publicar a violência e a ignorância como uma aceitação cotidiana que não se “avergonha” com a miséria alheia. O mesmo acontece com o “espetáculo” da intimidade do programa BBB, que gera “rios” de dinheiro para a emissora de TV. O mesmo intuito se encontra nos cultos protestantes que apresentam curas milagrosas e fácil enriquecimento através da fé cristã. A sociedade do espetáculo, escrito por Guy Debord em 1967, portanto antecedeu maio de 68 em Paris, está em vigor até hoje porque a sociedade do espetáculo ainda está instituída e recheada de vácuos. O culto do corpo e do prazer passou ser a essência. O sonho de consumo é o espetáculo cotidiano da vida de muita gente. A aparência da imagem diz mais que a essência dela. Essência de quê? Essência do vazio, talvez do rio caudal repleto de plástico que deságua a poluição no mar, que, apesar da imensidão, também está poluído, e que a geração do vazio faz que não ver, ou melhor, não enxerga.

Nessa sociedade de consumo e prazer o que faz sentido? Fantasia? Se pensarmos a partir do livro “A sociedade do espetáculo” descobriremos muito além da visão porque daremos vazão ao olhar. Olhar que busca a profundidade além do que se vê no exterior, que precisa enxergar o âmago que perdura em torno do nosso coração e da mente. Ver o próximo como a si mesmo; socializar o pensamento, as emoções e as ações. Aprender a decodificar as imagens que nos circundam, indo além do tempo, da aparência, chegando à essência. É saber o significado dos significados para discernir os significantes a partir dos signos.

Mas, realmente, que olhar me referi e que ideal estou a falar? Perguntas são caminhos a serem trilhadas para se dirimir as dúvidas. É com base em perguntas que procuramos formatar o ideal que se pode ser. Entre ver e ser, as imagens dizem muito. Quando se tatua um simples beija-flor ou uma rosa não significa que a pessoa é um defensor da preservação da natureza. Quando se tatua o nome de alguém como prova de amor, não se sabe que o amor está no coração, na profundidade da alma, muito além da superficialidade da pele. Toda imagem trás consigo representações denotativas além das inúmeras conotativas. “A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação” (DEBORD, 2007, p. 14). Só contemplar é muito pouco na sociedade moderna e um desafio para ações que a pós-modernidade exige. Então, tatuar algo para demonstrar ou declarar o amor a alguém é como não ter confiança no seu próprio sentimento, portanto parafraseando Guy Debord, é como se a pessoa mentisse para si próprio.

Fui buscar respostas para essas questões todas e me deparei com o medo? Deparei-me com um mapa cujos acidentes geográficos eram precipitações, abismos, depressões. Entendi que havia chegado o momento de formatar ideias. Para isso se faz necessário uma escola ao contrário, onde as realizações práticas tenham como base a leitura. O livro, esse sujeito ausente das mãos, olhares e mentes, é a questão! Impresso ou digitalizado, o livro, esse sim, é à luz do fim do túnel; fala com o interior, não com o exterior. Mesmo que seja musicado, filmado, representado, narrado, poetizado… Isso porque a vida precisa de poesia! Poesia que fuja do vazio e se paute em ações e sentimentos. Que traga em si ou aponte para um ideal. Tudo mundo precisa de um ideal para viver.

Carlos Cartaxo