O CONTERRÂNEO QUE ENSINOU A PARAÍBA A LER

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Antônio Gomes de Arruda Barreto nasceu nas proximidades de Pedra Lavrada, em 1857, no momento em que Picuí ganhou impulso urbano com a escolha de São Sebastião como seu Santo Padroeiro, e com a vila lavradense recebendo o seu primeiro padre dois anos depois. Sua família tinha proeminência política, sendo ele era parente dos Ferreira de Macedo, os fundadores de Picuí, e do poderoso Barão de Araruna. Foi uma das pessoas mais inteligentes que se tem notícia porque ainda menino, em nosso Seridó distante, tornou-se um leitor dos livros clássicos, aprendeu francês, espanhol, latim e rudimentos da língua alemã.

Com tanto saber, assumiu ainda adolescente a única escola pública de Pedra Lavrada, mas permanecendo pouco tempo na função, pois logo foi substituído por Graciliano Fontino Lordão, o professor Lordão, também bastante instruído que se tornaria o nosso grande líder político e benfeitor. Antônio Barreto foi transferido para Catolé do Rocha onde assumiu a escola local, encontrando melhores condições para desenvolver a sua vocação intelectual. Foi então que, além de poliglota, ele se tornou professor, poeta, jornalista e político, além de advogado, promotor e escritor jurídico (mesmo não sendo Bacharel em Direito).

A sua fama se espalhou no momento em que fundou, em Brejo do Cruz (1898), um educandário que veio a se tornar a melhor escolha interiorana do seu tempo, para onde convergiam alunos de todos os quadrantes. Junto com o seu talento para o saber e para o magistério tornou-se político dos mais influentes na Paraíba, tornando-se amigo íntimo do Presidente Epitácio Pessoa, exercendo o cargo de deputado por muito anos, tendo falecido em 1909 no exercício do mandato com apenas 52 anos de vida.

Se ele marcou época como político, muito mais gloriosa foi a sua vida de intelectual e de homem de imprensa. Foi redator de dois jornais importantes da sua época (O Estado da Paraíba e o Mossoroense), colaborou em outros dois (O Combate e O Eco) e foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano.  Como escritor publicou em jornais muitas poesias, escreveu uma gramática latina e um tratado de Direito, feitos que lhe valeram o patronato da Cadeira número 09 da Academia Paraibana de Letras (ele foi ao mesmo tempo membro efetivo dos dois Institutos culturais da Paraíba, uma glória imensa para um sábio!)

Antônio Barreto foi também o avô intelectual de Ariano Suassuna. É que ele se casou em terceiras núpcias com a tia do grande mestre de Taperoá, e trouxe o pai dele ainda adolescente para viver em sua casa e estudar em sua escola. Foi então que João Suassuna pegou amor pelos livros, influenciado pelo grande educador, chegando a se formar na prestigiosa Faculdade de Direito do Recife, feito raríssimo para um sertanejo daquele tempo (para que tenhamos uma ideia do grau de dificuldade deste exame, era preciso obter aprovação em língua francesa, gramática latina, retórica, filosofia racional, moral e geometria).

Foi essa cultura instigada pelo mestre lavradense que foi legada ao filho ilustre de João Suassuna, Ariano Suassuna, através dos livros da biblioteca paterna que lhes foram deixados, muitos dos quais foram do antigo professor, fato que foi contado numa entrevista à pesquisadora norte americana Linda Lewin. E o hábito da leitura, como sabemos, se cultiva através do exemplo, de existirem bons livros na casa de quem está sendo educado.

Eis um conterrâneo de nosso Seridó Oriental Paraibano que jamais será esquecido! Em 2017 era para ter sido comemorado o sesquicentenário do seu nascimento, mais uma data especial passada em branca nuvem.

Alisson Pinheiro

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