O Seridó que já foi um só – de como furtaram da Paraíba 10 mil quilômetros quadrados de terra

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O território paraibano tem o formato curioso de um “pilão deitado”, na expressão do historiador Horácio de Almeida, de tão estreito que ele se torna na região que circunda Patos. Porém, nem sempre foi assim, pois a nossa fronteira com o Rio Grande do Norte era uma linha quase reta que começava da foz do rio Guaju, entre Mataraca e Pedro Velho, rumando para o oeste em direção da Serra do Cuité e daí continuava sem rodeios até as serras dos Martins e de Luis Gomes.

Por isso é que quase todo o seridó riograndense era paraibano e foi-nos subtraído sem nos darmos conta. Os culpados foram um político e uma santa; o político foi o padre-senador Francisco de Brito Guerra, enquanto que a santa foi, nada mais nada menos que Santana, a padroeira de Caicó.

A região de Caicó era paraibana no período colonial, e sempre subordinada politicamente à cidade de Pombal, a povoação mais antiga das redondezas. Pombal tornou-se vila em 1772 enquanto Caicó só alcançou essa honraria quase vinte anos mais tarde, mudando para o pomposo nome de “Vila do Príncipe”. A Paraíba dominava o Rio Grande do Norte em questões judiciárias, o que só veio a ter fim em 1818, quando foi criada a Comarca de Natal. Porém, Açu, cidade que sempre foi potiguar, despontava como um pólo promissor e por ser mais próximo de Caicó, começou naturalmente a influenciá-la para o lado riograndense.

E foi nesse tempo de crescimento da população e da riqueza seridoense que nasceu no atual município potiguar de Augusto Severo, Francisco de Brito Guerra, em 1777. E ninguém imaginaria que aquela criança iria se tornar padre, senador do Império e o maior líder político regional em todo século XIX , às custas da Paraíba e do seu território.

Mas ninguém pode chegar à glória sem qualidades pessoais, que o destino lhes concedeu em grande quantidade. Aos doze anos foi morar em Pernambuco com a família e logo ingressou no seminário de Olinda, onde adquiriu sólidos conhecimentos de Latim e das Humanidades. Em 1801 é sagrado padre e no ano seguinte assume a freguesia de Santana, em Caicó, onde passou a ter uma vida ativa na política e na sociedade, que utilizou para transferir a órbita da sua freguesia para o Rio Grande do Norte. Era muito organizado, gostava de fazer estatísticas, algo raro naquele tempo, o que muito agradava os seus superiores eclesiásticos. Pelos seus dotes intelectuais, criou a primeira escola da região, que logo atraiu alunos de muito longe, fato que fez aumentar muito o seu poder.

Em 1810 foi a antiga Corte, no Rio de Janeiro, de onde voltou com o título de “vigário colado”, posição que lhe dava direito à salário, pois naquele tempo existia o sistema do “padroato” em que os sacerdotes eram como se fossem funcionários públicos, pagos pelo Governo.

Com vida folgada, pôs-se a construir o primeiro sobrado de Caicó, prédio este que ainda existe e que foi descrito por Frei Caneca em 1824 como a melhor construção do lugar. Também foi tecendo preciosas relações de amizade, a ponto de ser nomeado “Visitador Episcopal para a Paraíba e Rio Grande do Norte, e Delegado do Crisma”, prestigiosa função que lhe permitia viajar pela região como se bispo fosse. E também teve êxito no amor, que o diga os seis filhos que gerou, todos reconhecidos em testamento.

E foi por meio de sua imensa influência dentro da Igreja que ele conseguiu que fossem considerados “fregueses de Santa Ana” todos os moradores da imensa região paraibana que logo seria incorporada ao Rio Grande. Ele simplesmente quintuplicou o tamanho da região eclesiástica sob seu domínio !! Também conseguiu que a sede judicial de Caicó, então Vila do Príncipe, passasse de Pombal para Natal.

Com essas sutis modificações no status judiciário e eclesiástico de Caicó, estava formada a “trama diabólica” que mutilou a Paraíba em mais ou menos um sexto do seu território, o que se concretizou em 1835 quando o parlamento nacional aprovou seu projeto de Lei que transferia para o domínio potiguar quase todo o Seridó Paraibano, só deixando para nós as terras ao redor, com uma “barriga” no meio, separando os extremos, de São Mamede à Frei Martinho.

A ironia do destino é que eles não puderam levar o torrão onde nasce o rio Seridó, que dá nome a toda a região, que se localiza no município de Cubati, numa prova de que a cobiça também tem seus limites. Literalmente, ficamos com a nascente e eles com toda a ribeira !!!

O incrível é que nossa elite política só se deu conta do esbulho mais de vinte anos depois, quando o então governador B. Rohan pediu aos estados vizinhos que informassem os limites com a Paraíba e somente o Rio Grande do Norte respondeu a pedido com a descrição precisa dos marcos fronteiriços, num tempo em que nenhuma divisa estava definida.

O que esteve em jogo nessa cartada foi o futuro político do padre Guerra, que viu aumentar, como ele nunca imaginou, a sua área de atuação, morrendo no Rio de Janeiro como senador em 1844.

Mas o mal estava feito e de forma definitiva. Logo a vasta região rendia a graças a Sant’Ana, votava no padre Guerra e nunca mais quis saber da Paraíba. O nosso estado, quando em 1920 assinou um documento reconhecendo a fronteira imposta, apenas rendeu-se à realidade dos fatos.

A meu ver, odioso é ter o Rio Grande do Norte continuado avançando sobre nossas terras nos anos que se seguiram, como comprova a preocupação do nosso Abílio César, já na década de cinqüenta, que dedicou muito dias de sua vida lutando para estancar de vez esse avanço por meio de marcos sólidos.

Porém, penso que isso foi bom para os paraibanos que se viram potiguares da noite para o dia; é que inserida no Rio Grande do Norte, essa parte do Seridó passou a ter um peso político que certamente não teria se continuasse paraibana. Isso porque o nosso estado é muito mais povoado do que o nosso vizinho do norte, tendo por isso muitas regiões influentes para dividir as forças políticas. E esse poder refletiu-se na maior presença do Estado, com mais obras e serviços públicos prestados e uma forte representação política, no que resultou num dos melhores índices de desenvolvimento humano do interior nordestino.

Para nós, que ficamos com a banda menor do outrora “Grande Seridó”, resta-nos torcer pelo desenvolvimento das duas partes que, irmanadas por uma origem única, seguirão unidas vivendo no chão pedregoso comum que a sábia natureza nunca irá separar.

Alysson Pinheiro

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