O PROFESSOR LORDÃO

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No nosso Seridó existiram algumas pessoas que se tornaram conterrâneos por adoção, pelas ações benfazejas em favor dessa terra lindamente pedregosa.  Neste seleto rol de forasteiros brilha o nome do professor Graciliano Fontino Lordão.

Ele nasceu em 1844 na capital paraibana. O seu pai era um religioso influente que se destacou no magistério e na política. Sua mãe era uma mulher preta, talvez escravizada. Assim, ele nasceu com dois grandes óbices, o de ser mestiço no tempo da escravidão e o de ter surgido através de uma relação não reconhecida pela lei. Contudo, o seu talento era tão grande que todos estes obstáculos foram vencidos pela força da educação.

Com quinze anos já se destacava nos estudos de filosofia, retórica, geografia, francês, inglês e latim. Não conseguiu cursar Direito no Recife devido a um problema grave de saúde na época dos exames; e esta meta se tornou inviável depois que ele teve uma séria altercação com o pai que provocou seu início precoce no magistério visando a sobrevivência. Ele começou a dar aulas particulares de latim e rapidamente angariou muitos alunos devido a excelência do seu trabalho.

Ele tinha consciência do seu valor e do seu papel social e logo começou a lecionar em escolas públicas. Sua carreira teve início em Cuité (1865), onde passou mais de um ano, tempo suficiente para se tornar grande amigo da elite regional, com destaque para o coronel Antônio Gomes Barreto, residente em Pedra Lavrada, cujo filho que fora seu aluno se destacaria no ensino e na política.

Conseguiu construir uma respeitável carreira no magistério paraibano, pois depois da passagem por Cuité lecionou em Pombal, João Pessoa, Fagundes, Campina Grande e Cajazeiras. Sua passagem por Campina foi assinalada com destaque pelo historiador Elpídio de Almeida, tanto pela excelência do ensino, quanto porque foi patrono das primeiras aulas noturnas da cidade, essenciais para que muitas pessoas de origem humilde melhorassem de vida, uma atitude que demonstrava a sua consciência social e de classe.

A sua vida sofreu uma guinada quando veio assumir a escola pública de Pedra Lavrada (1875), fato que marcou o início de uma carreira política que transformaria Picuí e o Seridó Oriental Paraibano. A sua amizade com a elite local, o vazio de poder que surgiu com as mortes do Barão de Araruna e do coronel Antônio Gomes Barreto, junto com os serviços educacionais prestados e a corajosa operosidade durante a catastrófica seca de 1877 o transformaram no líder político inconteste da região por mais de trinta anos.

Criou um vínculo especial com Pedra Lavrada, mas sua influência política era muito ampla, estendendo-se pelas regiões de Picuí, Cuité e Soledade.  Tantos apoios garantiram sua escolha para deputado provincial em quatro eleições sucessivas no tempo do império, destacando-se na luta contra os efeitos das estiagens e nas ações pioneiras visando impedir o avanço do Rio Grande do Norte no território paraibano. Sua ação foi determinante para que Picuí ganhasse a autonomia municipal no ano de 1888, a última emancipação na Paraíba no tempo da monarquia.

Nem o advento da Republica abalou o seu prestigio, pois foi nomeado coronel pelo presidente Floriano Peixoto (1891), fato que marcou o ápice de sua carreira. Chegou a exercer mais um mandato de deputado estadual durante a República Velha. Dentre as suas ações neste período, chama atenção a transferência da comarca judicial de Soledade para Pedra Lavrada por alguns meses.

Quando abandonou a política partidária ingressou no fisco estadual. Mesmo residindo na capital, continuou muito ligado ao nosso Seridó e a Pedra Lavrada em particular, onde mantinha casa e a conhecida fazenda Maxinaré. Sua presença foi tão marcante que até hoje são reconhecidos os bens imóveis que lhes pertenceram na cidade. Supremo indício do seu amor pelo nosso Seridó é que seus restos mortais hoje repousam em solo lavradense, no interior da Matriz de Nossa Senhora da Luz, templo que ele ajudou a construir.

Foi um dos raríssimos coronéis cujo título pomposo ficou ofuscado pelo cognome de professor, demonstrando o poder singelo da Instrução, capaz de fazer triunfar os destinos mais incertos, como podemos observar na sua própria trajetória, um homem nascido marcado pelos preconceitos do seu tempo, mas salvo pela Educação que lhe abriu as portas do magistério, da academia, do jornalismo, da política e do reconhecimento social.

Era tão culto que se tornou um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, o guardião da memória do nosso Estado.

O professor Lordão foi pai de dois filhos, sendo que um deles, portando o seu nome, formou-se em medicina na Bahia e fez história na saúde de Parelhas onde é lembrado até hoje.

Também ele foi o avô intelectual do escritor Ariano Suassuna. É que seu talentoso pupilo lavradense, Antônio Gomes de Arruda Barreto, abdicou de seguir a carreira política na região para assumir a escola pública de Catolé do Rocha, onde obteve tanto sucesso que se tornou coronel. Lá se casou com a irmã de Joao Suassuna, o pai de Ariano, que, sendo criança ainda ficou na sua guarda e por ele foi instruído no gosto pelos livros e pela cultura. Após a sua trágica morte nos acontecimentos envolvendo a Revolução de 1930, sua biblioteca conservada pela família serviu de inspiração e de alimento intelectual para o menino Ariano, hoje o maior orgulho da inteligência paraibana.

O fato de os picuienses o reconheceram como mestre, e não como coronel, quando escolheram o seu nome para nomear a mais antiga escola pública da cidade, demonstra a imensa sensibilidade do nosso povo.

Alisson Pinheiro

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