Deputados criticam desfile da Vai-Vai por ‘demonizar’ a polícia

Por Por Caroline Hardt - em 2 semanas atrás 26

Deputados federais criticam nesta segunda-feira, 12, o desfile da escola da samba “Vai-Vai“, de São Paulo, por trazer uma alegoria que, segundo eles, “demonizava” a Polícia Militar. As críticas se referem à ala que trazia integrantes usando roupas militares, escudos com a inscrição “Choque” e asas e chifres nos tons vermelho, laranja e amarelo. O deputado Sargento Portugal (Podemos-RJ) classificou o ato como “escárnio”. “Lamentavelmente, vivemos uma sociedade na qual a polícia é desvalorizada e humilhada diariamente. Ao invés de fazerem um desfile mostrando os agentes de segurança pública como heróis, fazem esse escárnio com esses heróis anônimos da sociedade”, disse Portugal. No mesmo sentido, o deputado Sargento Gonçalves (PL-RN) disse torcer para que a agremiação seja rebaixada: “Torço para que uma escola de samba que promove esse tipo de absurdo seja rebaixada. Não há justificativa para fazerem tamanha imbecilidade contra os policiais, categoria que rala diariamente, sob condições precárias, para proteger aqueles que eles nem conhecem”, declarou Gonçalves.

Também crítico ao teor do desfile, o deputado Coronel Telhada (PP-SP) falou em “inversão de valores”. Segundo ele, a Polícia Militar, por desempenhar um papel importante na sociedade, não pode ser retratada como a representação da escola: Um total desrespeito com a nossa polícia militar”. Nas redes sociais, vereadores e outras autoridades também criticaram a alegoria. Em contrapartida, outros parlamentares, como a deputada federal Jandira Feghali (Psol), enalteceram a apresentação da escola: “Destaque para a última alegoria, que ousadamente resinificou símbolos da capital, como o lema do brasão e a estátua de Borba Gato, ressaltando a ousadia e a resistência no Carnaval de 2024”, escreveu no X (antigo Twitter).

Neste ano, o enredo da maior campeã do carnaval paulistano é  “Capítulo 4, Versículo 3  – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano”. Segundo apresentação da escola, o objetivo é “mostrar a rua como espaço em constante disputa pela arte na cidade de São Paulo” e celebrar os 40 anos da cultura hip hop no Brasil. Entre os pontos mais aclamados pelo público, merece destaque a escultura do bandeirante Borba Gato “em chamas”, acompanhada do lema “fogo nos racistas”, que fazia referência ao episódio de julho de 2021, quando um grupo de manifestantes ateou fogo em pneus ao redor da estátua que fica na zona sul de São Paulo. Outras referências presentes no desfile também incluíram frases de músicas famosas e trechos do disco “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MC’s. O grupo, inclusive, participou do desfile.

Em nota ao site da Jovem Pan, a escola de samba Vai-Vai afirmou que o desfile “tratou-se de um manifesto, uma crítica ao que se entende por cultura na cidade de São Paulo, que exclui manifestações culturais como o hip hop e seus quatro elementos – breaking, graffiti, MCs e DJs. (…) Neste contexto, foram feitos, ao longo do desfile, uma série de recortes históricos, como a semana de arte de 1922 e o lançamento do álbum ‘Sobrevivendo no Inferno’, dos Racionais MCs, em 1997. ‘Sobrevivendo no Inferno’ é o segundo álbum de estúdio do grupo, lançado pelo selo da gravadora Cosa Nostra em 20 de dezembro de 1997. (…) Ou seja, a ala retratada no desfile de sábado, da escola de samba Vai-Vai, à luz da liberdade e ludicidade que o carnaval permite, fez uma justa homenagem ao álbum e ao próprio Racionais Mcs, sem a intenção de promover qualquer tipo de ataque individualizado ou provocação, mas sim uma ala, como as outras 19 apresentadas pela escola, que homenageiam um movimento”.

Confira a nota da Vai-Vai na íntegra:

Em 2024, a escola de samba Vai-Vai levou para a avenida o enredo Capitulo 4, Versículo 3 – Da rua e do povo, o Hip Hop – Um manifesto paulistano.

Como o próprio nome diz, tratou-se de um manifesto, uma crítica ao que se entende por cultura na cidade de São Paulo, que exclui manifestações culturais como o hip hop e seus quatro elementos – breaking, graffiti, MCs e DJs. Além disso, o desfile buscou homenagear e dar vez e voz aos muitos artistas excluídos que nunca tiveram seu talento e sua trajetória notadamente reconhecidos.

Neste contexto, foram feitos, ao longo do desfile, uma série de recortes históricos, como a semana de arte de 1922 e o lançamento do álbum “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MCs, em 1997. “Sobrevivendo no Inferno” é o segundo álbum de estúdio do grupo, lançado pelo selo da gravadora Cosa Nostra em 20 de dezembro de 1997. É considerado o álbum mais importante do rap brasileiro. Em 2007, figurou na 14ª posição da lista dos 100 melhores discos da música brasileira pela Rolling Stone Brasil. Em 2018, o álbum foi incluído pela Comvest (Comissão Permanente para os Vestibulares da Universidade Estadual de Campinas) na lista de obras de leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp a partir de 2020. Meses depois, a obra virou livro, publicado pela Companhia das Letras, tamanha sua relevância.

Segundo a Revista Rolling Stone Brasil, que ranqueou o álbum na 14ª posição da lista dos 100 melhores discos da música brasileira, “Sobrevivendo no Inferno colocou o rap no topo das paradas, vendendo mais de meio milhão de cópias. Racismo, miséria e desigualdade social — temas cutucados nos discos anteriores — são aqui expostos como uma grande ferida aberta, vide ‘Diário de um Detento’, inspirada na grande chacina do Carandiru”.

Ou seja, a ala retratada no desfile de sábado, da escola de samba Vai-Vai, à luz da liberdade e ludicidade que o carnaval permite, fez uma justa homenagem ao álbum e ao próprio Racionais Mcs, sem a intenção de promover qualquer tipo de ataque individualizado ou provocação, mas sim uma ala, como as outras 19 apresentadas pela escola, que homenageiam um movimento. Vale ressaltar que, neste recorte histórico da década de 90, a segurança pública no estado de São Paulo era uma questão importante e latente, com índices altíssimos de mortalidade da população preta e periférica. Além disso, é de conhecimento público que os precursores do movimento hip hop no Brasil eram marginalizados e tratados como vagabundo, sofrendo repressão e, sendo presos, muitas vezes, apenas por dançarem e adotarem um estilo de vestimenta considerado inadequado pra época. Ou seja, o que a escola fez, na avenida, foi inserir o álbum e os acontecimentos históricos no contexto que eles ocorreram, no enredo do desfile.

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