O Cel. Manoel Lucas de Macedo, um grande realizador

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Somente os corajosos cometem erros

(Friedrich Hegel)

De todos os picuienses nascidos no século XIX, nenhum é mais lembrado do que o Coronel Manoel Lucas de Macedo, talvez porque seu tempo de vida coincidiu com as imensas transformações ocorridas na Paraíba e no mundo. Em Picuí essas mudanças foram em geral positivas, já que depois da sua fundação oficial (1856), tornou-se sede de paróquia (1871), teve delimitada a sua área municipal (1875) e alcançou a autonomia administrativa no ocaso do Império (1888).

Fora do perímetro municipal aconteceu um fato impactante para Picuí que foi a inauguração do terminal ferroviário em Campina Grande (1907), pondo fim às longas viagens para o Recife em lombos de burros. E bancando tudo isso estava o algodão que provocou a transferência do centro de poder paraibano da zona da mata para o sertão.

Era neto de Antônio Ferreira de Macedo que veio de Pedra Lavrada para viver na fazenda Umburanas onde formou uma família imensa de dezoito filhos. Seu pai foi José Ferreira de Macedo, considerado o fundador de Picuí. Assim, ele chegou neste mundo com amplas possibilidades de ascensão, embora tivesse que esperar um pouco, porque o herdeiro político da família era Tomaz, o irmão mais velho. Com a morte precoce deste, Manoel Lucas assumiu o seu lugar.

Iniciando a vida política em 1890, sua carreira foi num crescente, atingindo o ápice entre 1904 a 1913, quando governou Picuí de maneira ininterrupta. Ele é considerado o primeiro prefeito porque até 1904 não existia esse cargo na Paraíba. Antes a gestão era tocada pela Câmara Municipal, através de um dos vereadores escolhido por seus pares para exercê-la (assim é que Picuí foi governada de 1888 a 1904).

Nos nove anos que comandou Picuí houve uma melhora na educação e na estrutura de prédios públicos (vale recordar que era o imenso município que incluía Cuité e Barra). Foi ele que materializou o sonhado mercado municipal, o mesmo que foi destruído no início da década de 1980. Também revolucionou a iluminação pública da cidade, quando substituiu os opacos lampiões de azeite por luminárias a gás que tornaram as noites menos escuras. Foi pioneiro na preocupação com o meio ambiente, já que tomou a iniciativa de fazer a arborização planejada das ruas de Picuí. Era muito organizado, pois escrevia belos relatórios sobre a sua gestão, como o de 1907 que é repleto de informações preciosas. Por tudo isso é que muitos o consideram um dos melhores gestores picuienses de todos os tempos!

A sua personalidade complexa é muito discutida. Abílio Cesar anotou reminiscências a respeito da sua energia e arrogância, dando a entender que ele tinha opiniões rígidas que beiravam a teimosia. Fabiana Agra desenterrou alguns fatos que falam por si, ao descrever o estranhamento havido entre o Coronel Manoel Lucas e o padre Agra, seu antepassado, pároco de Picuí entre 1908 a 1912. A briga foi séria porque o cura temeu por sua vida e fugiu da cidade, disfarçado com trajes femininos, para evitar uma possível emboscada.

Para completar a percepção do seu gênio forte, ele alimentava uma rixa pessoal com o primo Antônio Xavier de Macedo, também coronel e comerciante, provavelmente por questões ligadas à política. Neste caso, a rivalidade assumiu um aspecto benéfico, porque a inveja do belo casarão do primo e rival, concluído no ano de 1900, motivou a construção do emblemático sobrado de azulejos da Rua João Pessoa, n. 15, hoje um patrimônio imaterial picuiense.

Se no trato pessoal costumava ser severo com os adversários, no terreno da vaidade era bastante maleável. Abílio César colheu depoimentos dos mais idosos, e anotou que ele “só saía de casa vestido impecavelmente roupa de casimira, colarinho duro e abotoadura de ouro”, que o seu rosto era marcado pelo “bigode farto e pelos cabelos penteados”. Sua esposa, Tereza Conceição o acompanhava na ostentação, pois suas roupas eram confeccionadas no Recife e da mesma cidade vinham periodicamente fotógrafos para retratá-los, como era costume entre os abonados da época.

Conta-se que com o seu falecimento (1919), a viúva ficou tão desconsolada que não observou o furto de muitos objetos valiosos do sobrado (mas não todos, pois outras preciosidades estavam na célebre botija, desenterrada de maneira misteriosa no final do século XX). Dizem que dona Tereza terminou a vida na mais extrema miséria. Sua penúria era tamanha que ao falecer, seu ataúde foi doado por uma amiga. É um desfecho penoso, mas previsível, numa época em que as mulheres em geral não eram preparadas para lidar com questões financeiras.

O destino da esposa do Coronel Manoel Lucas, certamente uma gastadeira contumaz, destoa da fama de sua mãe Joana Macedo, uma notória “mão de vaca”, característica que sempre desperta antipatia. Sobreviveu uma história de que o corpo da sogra do coronel ressecou após o sepultamento, e o coveiro depositou o cadáver enrijecido na frente do sobrado. Manoel Lucas providenciou um novo enterro, mas um bêbado pirracento retornou com o corpo, deixando-o mais uma vez no mesmo lugar. Para evitar outra surpresa desagradável, o Coronel providenciou a colocação do cadáver em um lugar secreto na Serra da Mesa.

Manoel Lucas não gerou filhos com a esposa. Restaram relatos de moças que residiram com o casal.  Minha bisavó, que chegou do sítio com doze anos de idade, foi viver com eles e só saiu de lá quando se casou. Ela encontrou um ambiente acolhedor, onde conseguiu se alfabetizar e aprender a profissão de alfaiate que lhe deu dignidade pelo resto da vida.

Um pensador afirmou que “todo homem é filho de seu tempo”. Sim, todos nós somos moldados pelos valores sociais do presente e pelo período histórico em que vivemos. Por isso, é preciso refletir sobre os seus atos misturados às condições históricas específicas nas quais viveu. Assim, se ele se mostrou teimoso e ameaçador nas suas atitudes, era o que se esperaria de um coronel no tempo da República Velha, onde só eram respeitados e temidos os ricaços ameaçadores e os cangaceiros cruéis. Naquele tempo prezava-se, sobretudo, a honra!

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