Captura de Maduro pelos EUA desgasta Lula e pode afetar eleições presidenciais no Brasil
Por Por Sílvio Ribas/Gazeta do Povo - em 2 minutos atrás 1
O ano da corrida presidencial no Brasil começa sob o impacto da captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, episódio que enfraquece o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por sair em defesa do ditador venezuelano e ignorar o fato de o regime chavista ser amplamente acusado de autoritarismo, fraudes e violações de direitos humanos. Os efeitos dessa crise podem afetar sua campanha pela reeleição.
Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o embate entre os discursos contra e a favor da operação militar americana na América do Sul pode transbordar a política externa e influenciar diretamente o ambiente eleitoral ao longo do ano. Não por acaso, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente e principal rival de Lula nas urnas, foi na linha oposta à do Palácio do Planalto e explorou as ligações históricas entre o petista e o chavismo.
Na América Latina e no plano político brasileiro, o efeito imediato foi o reforço da polarização, com líderes e governos de esquerda adotando postura crítica à ação americana, enquanto a direita passou a enfatizar os bons ventos trazidos pela queda da ditadura venezuelana e a sinalizar alinhamento com Washington. Nas redes sociais, parlamentares brasileiros da oposição apontaram contradições da esquerda e exigiram posições claras.
A captura de Maduro anunciada na madrugada do sábado (3) marcou ponto de virada na política de segurança americana, com disposição em empregar força, reinterpretando a Doutrina Monroe, do século 19, segundo a qual as Américas são área de influência de Washington. O ditador foi levado à Justiça de Nova York para responder por narcoterrorismo, após semanas de sanções e tensas e inéditas movimentações militares no Caribe.
O professor de Relações Internacionais Daniel Afonso da Silva, da USP, avalia que, por pragmatismo eleitoral, Lula pode virar a página mais rapidamente do que seu partido. Mas alerta: um posicionamento equivocado sobre a queda de Maduro tende a produzir efeitos duradouros nas eleições presidenciais e até de governadores. “Não dá simplesmente para condenar a queda de Maduro quando os venezuelanos espalhados por vários estados brasileiros aprovam e exaltam esse desfecho”, afirma.
Ao analisar o papel do Brasil, Silva é crítico da diplomacia do governo petista em relação à Venezuela. Para ele, há descompasso entre a visão técnica do Itamaraty e a orientação política da atual gestão. “Nenhum diplomata no primeiro escalão aceitava a situação venezuelana ou duvidava sobre a natureza do regime. O problema sempre esteve no núcleo duro do PT, historicamente leal ao chavismo e nostálgico dos tempos de Hugo Chávez”, diz.
