A “Febre” Azul: A Saga do Cruzeiro Esporte Clube de Picuí

Por Por Alisson Pinheiro - em 1 mês atrás 93

Se o futebol em Picuí teve um ápice de organização, paixão e técnica, este atende pelo nome de Cruzeiro Esporte Clube. Fundado em 1974 por João Padeiro e consolidado em 1975 sob a presidência de Leonardo, o Cruzeiro não foi apenas um time, mas um verdadeiro fenômeno social que alterou a rotina e os costumes de uma área que extrapolou os limites do município picuiense.

Uma Organização de Elite

Diferente do amadorismo comum a todas as épocas, o “Azulão” ostentava uma estrutura impecável, sustentada por um grupo coeso de comerciantes e figuras influentes, como Aluizio Henriques, Fausto Germano, Enaldo Macedo entre outros. A equipe apresentava uniformes variados e sempre impecáveis, além de contar com comissões técnicas de alto nível, incluindo nomes como Antonino (ex-Santa Cruz), Gilberto Henriques e o Tenente China. Essa seriedade administrativa refletia-se em um futebol vistoso que logo se tornou uma autêntica “febre” entre os torcedores.

O Time que Parava a Cidade

O impacto do Cruzeiro era tamanho que o hábito arraigado da partida de futebol vespertina se transformou: os trabalhadores e atletas locais marcavam suas peladas para o turno da manhã para que, à tarde, pudessem se juntar às imensas caravanas que partiam para ver o Cruzeiro jogar.

O esquadrão era composto por craques que se tornaram lendas locais, como Mero, Lola, Ramiro, Tião, Ferrugem, Nilson, Galego, Cidinho, Buba, Mereira, Zé Onildo, Pedroca e Tião e reforços de fora, como Anaelson e Tatá (de Cuité).

A Copa Borborema e o Estigma do Vice

O auge técnico da equipe foi a épica campanha na Copa Borborema, o certame amador mais importante da Paraíba. O Cruzeiro chegou à grande final contra o time de Queimadas, mas acabou sofrendo uma derrota amarga por 1 a 0. O gol, sofrido logo aos seis minutos de jogo, gerou suspeitas, nunca provadas, sobre o goleiro da época. Porém, independentemente do resultado, aquele elenco ficou gravado na memória popular como a melhor equipe de futebol já montada em Picuí.

Os anos 1980 chegaram reservando uma grande surpresa: em 1984, o Cruzeiro finalmente conquistou a Copa Borborema. A grande final aconteceu no Estádio Presidente Vargas, em Campina Grande. Com gol de Adriano Vidal, o Maninho, o Cruzeiro venceu por 1 a 0 e sagrou-se campeão, vingando a amarga derrota de 1977. Era o ápice da segunda geração, estrelada por Maninho, Nenê de Anunciada, Duda, Cláudio, Beto de Lourinho, dentre outros.

As grandes Rivalidades

A hegemonia do Cruzeiro era tão absoluta que provocou reações viscerais em seus adversários. O caso mais famoso foi o de Moisés, cartola do Picuí Clube, que transformou a derrota do Cruzeiro em uma questão de honra pessoal, jurando só deixar de se envolver com o futebol quando derrotasse o “invencível” rival, missão que só foi cumprida após dez derrotas seguidas e um investimento financeiro que o conduziu a sérios apuros financeiros.

Entre as rivalidades com times do Curimataú e do Seridó, a mais renhida era contra o Grêmio de Nova Floresta. Mobilizando carreatas e multidões de torcedores fervorosos, as circunstâncias de cada jogo transformavam essas partidas em espetáculos inesquecíveis para todos os que as presenciaram.

O surgimento de um mito

O tempo, essa força implacável, cumpriu a sua sina, após quase trinta anos da existência do “azulão”. Os mantenedores do Cruzeiro foram se afastando e a organização interna foi se deteriorando. O renomado time resistiu aos trancos e barrancos até 2005.

O Cruzeiro Esporte Clube permanece, até hoje, como o símbolo de uma era de ouro, um tempo em que o talento e o fanatismo paravam o Seridó para assistir ao “fino” do futebol praticado pelo Azulão.

 

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