O fim dos artífices em Picuí
Por Por Alisson Pinheiro - em 4 minutos atrás 1
“Mas ele desconhecia esse fato extraordinário: que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário”
(Vinícius de Moraes)
No tempo presente todos os produtos que antes dependiam do engenho manual dos artífices podem ser encontrados prontos nas prateleiras. Mas até relativamente pouco tempo todo o território do antigo município picuiense contava com os mais variados profissionais para atender às necessidades da população pelos utensílios agrícolas e de cozinha, sapatos, móveis e tantos outros. A maioria destas profissões milenares e emblemáticas desapareceu e pouco são lembradas.
Facas, talheres e instrumentos agrícolas eram forjados à mão pelos ferreiros. Podiam surgir como obras de arte, porque as lâminas de ferro ou aço eram aquecidas e moldadas com martelo sobre bigornas, criando uma identidade própria em cada peça. A partir da década de 1950, porém, a indústria tornou os produtos forjados pelos ferreiros materiais uniformes e muito mais baratos. E quando estas peças fabricadas em série chegaram ao interior nordestino a profissão de ferreiro entrou em declínio até se extinguir por completo.
Este não foi um caso isolado. Outros produtos produzidos pela indústria começaram a reduzir a relevância de ofícios tradicionais, como de sapateiros, seleiros e tanoeiros desde o fim do século XIX. A industrialização brasileira, intensificada entre 1930 e 1950, e, de maneira concomitante a chegada dos produtos de plásticos, das sandálias de borracha ou mesmo a extinção do trabalho feito pelos tropeiros, extinguiram as outras profissões que citei no início.
Uma das profissões antigas que sobreviveram, mas de maneira restrita, foi a de costureira (e de modista). No passado picuiense a maioria das donas de casa mantinha sua máquina de costura e apetrechos para fiação, porque eram raríssimas as roupas prontas. Minha bisavó materna atuou como alfaiate em Picuí na primeira metade do século XX. Inclusive, a máquina de costura manual da minha avó tornou-se herança de família e hoje pertence à bisneta Lailsa Oliveira.
Filho do ferreiro Badé de Pedra Lavrada era Paulo Bezerra, o afamado tradutor do russo para o português e professor da USP, conhecido nacionalmente através de reportagens e de entrevistas como a concedida no Programa do Jô. Certa vez o ouvi discursar em público citando com orgulho a excelência das peças forjadas por seu pai ferreiro, sinal claríssimo de um tempo em que esses ofícios eram indispensáveis à vida cotidiana.
Em Picuí muitos ainda tiveram a oportunidade de conhecer a última geração desses artífices: os sapateiros Dourinho e Bigode de Ouro, os ferreiros Mouco e seu Janjão, as costureiras dona Naza e dona Aurinha, seu Demétrio, o alfaiate, dona Benedita, que fabricava objetos de zinco, e outros que me fogem à memória. Bem mais recuado no tempo viveu seu Jesuíno, esposo de dona Zefa Belarmino, habilidoso na confecção de celas de couro para cavalos. Estes nomes são escassos diante da multidão anônima de artífices engenhosos que desempenharam suas funções imprescindíveis em todo o Seridó Oriental Paraibano a partir de 1700. Todos merecem aplausos e homenagens mesmo que seus nomes não tenham sobrevivido ao tempo.
Quando residi em Cubati convivi com alguns destes mestres. Um deles foi o sapateiro Zé Caboclo, já idoso, que consertava e construía calçados sob medida. Havia também a lavradense Margarida Valentim ou “Margarida flandileira” que com a família produzia bacias e utensílios a partir de folhas de zinco. Muito presente na feira, vendendo panelas e potes de barro, era dona “Nilza louceira”. Todos eles sustentaram com dignidade famílias extensas graças ao rendimento de profissões antes essenciais para a vida civilizada.
Uma história pode ilustrar esse declínio. O pai de Valdir fabricava calçados em Picuí. Na década de 1960, criou uma alpercata de couro que conquistou popularidade. As vendas iam muito bem até que chegaram as primeiras sandálias de borracha, as famosas havaianas. Mais macias, leves e baratas, logo caíram no gosto popular. As alpercatas ficaram encalhadas e o negócio do pai de Valdir ruiu. Histórias parecidas se repetiram com todos os outros artífices, a última geração deles do nosso Seridó.
O desaparecimento destes artesãos foi também a morte de um estilo de vida. Foram perdidos não apenas ofícios úteis, mas uma forma de sociabilidade, de espera, de diálogo e de valorização da criação humana que a produção em série jamais conseguiu substituir. Antes, se quiséssemos comprar uma faca, um calçado ou um móvel, era preciso procurar o artífice, fazer a encomenda, conversar sobre as características do objeto e esperar um tempo até que fosse concluído. Nesse intervalo, muitas emoções se misturavam: a expectativa, a confiança no trabalho do mestre, o acompanhamento do processo. A demora, longe de ser incômoda, alimentava uma boa ansiedade, um prazer que fazia parte da experiência.
Foi o fim de uma era e o início de outra, o epílogo de uma cultura material baseada na personalização e na durabilidade. Com o advento dos objetos feitos em série, algo essencial se perdeu em nossas vidas e cabe a cada um que ler este texto descobrir o que foi.
