Picuí Ama o Futebol
Por Álisson Pinheiro e Onildo Negreiros - em 1 mês atrás 95
O futebol chegou ao interior do Nordeste no início do Século XX, desde que aportou no Recife em 1904. Rapidamente subiu o Planalto da Borborema e fincou raízes profundas em Picuí, tornando-se o lazer mais democrático da cidade. A partir dos anos 1960, o nível técnico dos atletas locais atingiu um tal grau de excelência que foram convidados a mostrar suas habilidades nos grandes palcos do futebol paraibano, potiguar e brasileiro.
Os Anos Dourados e a Era de Ouro (1960 – 2005)
A década de 1960 foi marcada pelo Picuí Clube, esquadrão onde Chico do Padeiro, Antônio de Julia, Jacinto e Arlindo desenhavam a identidade do futebol local, além de Geraldo do Padeiro e Dumas, craque cobiçado pelo Alecrim e Riachuelo (RN).
As disputas políticas locais refletiram-se nos gramados quando o prefeito Zé Mariano fundou o Nacional Futebol Clube com seus correligionários. O time movimentou a cidade, mas perdeu fôlego no final da década com a saída do seu mantenedor do Executivo.
O vácuo que se seguir foi preenchido com a fundação do América por Heleno Henriques, pioneiro na busca por reforços das cidades vizinhas, trazendo os florestenses Vinuca, Triu e Tino que jogavam ao lado dos locais Rui do Correio, Beto, Lelé e Gilberto. O América era um visitante temido no Rio Grande do Norte e manteve relevância até o início dos anos 1970, até que fosse revitalizado em meados da década de 1980.
Por volta de 1972, brilhou o Real Madrid, comandado nos bastidores por Zé Morais, Luiz Emídio e João de Pedro Raposo. No Estádio Otávio Henriques, o jogos encantavam quando a bola chegava nos pés de Cozinho, Cidinho, Lelé, Galego, Pedroca de Domício e Irandir. O Real Madrid preparando o terreno para que fosse criado o Cruzeiro, a maior febre esportiva regional.
Fundado em 1974 sob a direção de João Padeiro e Leonardo, o Cruzeiro Esporte Clube (“o azulão”) já nasceu grandioso, graças à boa gestão e ao forte suporte do comércio local. O time arrastava multidões da zona rural aos domingos, onde deixou de existir os jogos à tarde. Cultivou uma rivalidade quente com o Grêmio de Nova Floresta, que resultou em muitas histórias. O ápice dessa geração aconteceu com o vice-campeonato da Copa Borborema diante de Queimadas por 1 a 0. Mesmo com a derrota, aquele elenco eternizou-se na memória coletiva em situação similar ao da Seleção de 1982.
Os anos 1980 chegaram reservando uma grande surpresa: em 1984, o Cruzeiro finalmente conquistou a Copa Borborema. A grande final aconteceu no Estádio Presidente Vargas, em Campina Grande. Com gol de Adriano Vidal, o Maninho, o Cruzeiro venceu por 1 a 0 e sagrou-se campeão, vingando a amarga derrota de 1975. Era o auge de uma geração marcante, liderada por Maninho, Nenê de Anunciada, Duda, Cláudio e Beto de Lourinho.
Em meados da década de 1980, o América ressurgiu. Sob o comando de Adelmo de Severino Gomes e Manoel do Ó, o clube se fortaleceu e montou um elenco compartilhado com o Cruzeiro,— fator que impediu o nascimento de uma rivalidade intensa entre as duas equipes. Embora o América tenha sido dissolvido em pouco tempo, o Cruzeiro resistiu aos trancos e barrancos até 2005. Contudo, muito antes disso, a era de ouro do futebol picuiense já dava claros sinais de declínio. Há quem defenda que essa decadência coincidiu com o fim do Estádio Otávio Henriques e a transferência das partidas para a nova Arena Amauri Sales de Melo.
De Picuí para o Mundo: Talentos e Causos
Desde o início da boa fase dos atletas picuienses, clubes profissionais passaram a prestar atenção neles. Da geração de 1960, Nilson foi um grande vencedor, campeão pelo Centenário de Parelhas/RN, pelo Corinthians de Caicó/RN e hexacampeão pelo Campinense Clube. A genética provou-se forte: Isleno, filho do zagueiro Arlindo, herdou a categoria do pai e defendeu o Campinense e o Potiguar de Currais Novos.
Dos que se sobressaíram na década de 1970, Méro levou sua raça para o Treze de Campina Grande, brilhando antes de abandonar os gramados por motivos pessoais e financeiros. Lola foi contratado pelo Nacional de Patos e protagonizou uma história folclórica: o presidente do clube (industrial do Fumo Dubon) veio buscá-lo de avião; apavorado com as alturas, Lola chegou literalmente “cagado” de medo a Patos.
O desportista Lamir Mota levou Zé Onildo e Ferrugem para o Campinense. Zé Onildo teve trajetória meteórica (atuou sem derrotas contra o Guarani do Crato e Botafogo-PB) mas, às vésperas de enfrentar o lendário Internacional tri campeão brasileiro, preferiu a estabilidade de um concurso público e abandonou o futebol profissional. Por sua vez, Ferrugem transferiu-se para o CEUB, então um clube da elite brasiliense, mas a boemia abreviou sua carreira e ele virou funcionário do Hotel Nacional de Brasília.
Contudo, a geração que despontou nos anos 1980 conseguiu levar vantagem por conta de um único jogador, Sebastião Cândido da Silva, o querido Zinho. Tendo sido descoberto pelo ABC de Natal, passou por Sport, Santa Cruz, Bahia, Ceará, Ponte Preta, dentre outros. Zinho foi vice-campeão paulista pelo São Caetano e vice-campeão brasileiro pela Portuguesa em 1996, figurando na lista dos 40 melhores atletas do país e em convocação da Seleção Brasileira.
O Ato Derradeiro e o Legado
No presente, o futebol picuiense sobrevive no saudosismo dos campeonatos de “Quarentões” e “Cinquentões”. Diante da “geração TikTok”, o ciclo de alto rendimento parece encerrado, restando o orgulho dos que se recordam que em Picuí se jogou o fino do futebol brasileiro.
Álisson Pinheiro e Onildo Negreiros assinam a autoria deste artigo
