Picuí já existia antes de 1856

Por Por Alisson Pinheiro - em 1 hora atrás 4

“As cidades não nascem de repente; são o resultado de longas durações.”

                                       [Fernand Braudel, Historiador]

No Brasil colonial e do século XIX, a vastidão territorial e a precariedade das comunicações permitiam que inúmeras povoações existissem à margem do conhecimento dos governos. Essa vida urbana surgia de forma espontânea por meio de pousos de tropeiros, garimpos clandestinos ou quilombos, consolidando-se em um vácuo administrativo onde a autoridade estatal era substituída pelo poder local de fato. Isso revelava um país onde a ocupação real da terra era muito mais veloz e caótica do que a sua burocracia oficial.

Circunstâncias semelhantes sugerem que Picuí tenha se formado muito antes do que registram as fontes oficiais, impulsionada pela presença da cacimba da Maricota, ponto estratégico escolhido pelos tropeiros para descanso e pernoite em meio às suas estafantes jornadas. Há, de fato, indícios consistentes de que ali já se delineava um aglomerado de casas e uma incipiente vida citadina antes de 1856. Entre a primeira sesmaria em que figura o antigo topônimo “Pichuy” e a edificação da capela de São Sebastião, estende-se cerca de um século e meio de existência discreta, porém reveladora de que o lugar já se configurava como núcleo estruturado de ocupação e sociabilidade.

A primeira comprovação dessa vida citadina anterior à fundação é a sobrevivência da Ata de instalação da povoação do Caicó, de 1735, resgatado pelo históriador Olavo de Medeiros, documento oficial repleto de assinaturas das autoridades presentes. Dentre as rubricas existe uma muito familiar: a de Antônio Garcia do Amaral, Tenente de Cavalaria de Pichuy. Não há ambiguidade possível, em todo o Seridó, potiguar ou paraibano, apenas um lugar carrega esse nome!

Por sua vez, no aclamado Dicionário Corográfico do Estado da Paraíba, de Coriolano de Medeiros, há o registro de que Picuí tornou-se sede de um juízo de paz em 1841. O juiz de paz era um leigo eleito pela comunidade, uma espécie de “faz tudo” no tempo do Império. Certamente uma instância judicial só existe concentração populacional, vida urbana. Essa informação não foi tirada de um livreco, mas daquele que é considerado a “bíblia” da geografia e da história paraibana. A importância dessa obra é ímpar porque ele sistematizou de maneira pioneira um inventário completo do Estado da Paraíba.

Por fim, Irineu Pinto transcreveu em suas “Notas” todo o teor do importantíssimo Relatório Provincial de 1858, em que revela a construção do “Cemitério de Picuhy à custa dos seus moradores”. O Relatório Provincial era um documento anual em que o presidente da província prestava contas da administração à Assembleia Legislativa. Reunia informações sobre finanças, obras, segurança e economia, além de propor medidas de governo. É certo que o nome de uma localidade recém-criada, não mereceria destaque em um documento tão relavante se ela não fosse pujante em termos de riqueza e população, aspectos que demandam tempo para se constituir. Isso sugere mais uma vez que Picuí existia há muito tempo.

A História ensina que cidades nascem de súbito quando surgem grandes riquezas inesperadas, como ocorreu em Minas Gerais, onde Ouro Preto, Sabará e Diamantina emergiram quase de um dia para o outro, embaladas pelo ouro. Mas nada semelhante se deu no Seridó paraibano.

Portanto, podemos concluir que antes da solenidade de fundação, já existia vida urbana em Picuí, dispersa em arruados disformes e caóticos. A cidade existia antes de saber-se cidade. Quando, enfim, se ergue a capela de São Sebastião, não se funda Picuí: reconhece-se o que já existia.

A criação dessa “Picuí renovada”, em 1856, veio acompanhada de um deliberado projeto de urbanização. Curiosamente, enquanto muitas cidades brasileiras do período se formavam a partir de traçados irregulares, como o arco imperfeito das primeiras ruas de Cuité e Pedra Lavrada, Picuí já revelava, em suas vias iniciais, João Pessoa, Ferreira de Macedo e São Sebastião, uma harmonia incomum, indicativa de planejamento e consciência urbanística. É como se, desde o princípio, se tivesse buscado imprimir ordem ao que outrora nascera de modo espontâneo.

Desse encontro entre o improviso e o planejado emerge a cidade que hoje conhecemos. Talvez resida aí sua marca mais profunda: não a de um nascimento súbito, mas a de uma longa e silenciosa gestação, que se consuma quando a elite local decide, enfim, erguer a Igreja de São Sebastião, conferindo reconhecimento oficial e estabilidade a uma povoação preestabelecida. Com efeito, a presença de um templo tornava possível a criação da freguesia, unidade essencial, tanto no plano religioso quanto no administrativo, condição indispensável para que um núcleo urbano se desenvolvesse conforme os preceitos legais de então.

Não surpreende, portanto, a rápida evolução de Picuí: em pouco mais de três décadas, sucederam-se a construção da capela (1856), a criação da freguesia (1871) e a autonomia (1888). Não se trata de um crescimento repentino, mas da manifestação de uma maturidade mais antiga. Picuí, antes de ser oficialmente instituída, já existia, como as realidades que o tempo forma sem pressa e consolida com permanência.

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